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Mas de tudo, o mais lastimável é saber que outra noite chega a transcorrer normalmente aos olhos dos que conseguem descansar sobre o seu conforto incomum e tão restrito."

"Queria eu ter o dom de escrever o que quisesse, já que tantas figuras primorosas se fizeram desvencilhar diante de mim. Dizem que o verdadeiro poeta é aquele que consegue transformar um momento fotográfico ou imaginário em um lindo texto, recheado de descrições harmoniosas e atrativas. No ultra-romantismo, o sentimentalismo excessivo e sombrio se destacava. Os escritores denunciavam toda a melancolia de uma vida marcada por desilusões e tédio, definindo o drama como papel marcante em suas poesias. Ao contrário do que muitos pensam, eu não os via como pessoas tristes, mas sim como produtos da tristeza do meio. E, constantemente, sou vítima dessa realidade. Não consigo simplesmente fechar os olhos e esquecer as feridas que marcam meu corpo. Não tenho aptidão à escrita dos sonhos utópicos e repletos de ficção. Juízo falso, engano da alma, persuasão transgressora. Seriam esses os objetos aos quais eu deva dar primazia? Silêncio responde: - Apaguem as luzes!"

"E num instante qualquer comecei a pensar em minha vida. Foi tudo tão rápido que nem sequer tive direito de aceitar aquela situação. Sem esperar, flashes e luzes transpassaram as imagens que meus olhos podiam enxergar naquele momento. À minha memória restavam apenas registros passados de sentimentos que já não mais existiam. Eu estava em outro lugar, em outro tempo, indeterminado e esquecido. Como de relance, aos meus olhos foi permitido divisar imagens que há muito adormeciam em meu inconsciente. Lágrimas corriam de meus olhos, como se algo ou alguém estivesse a perfurar-me incisivamente. E eu não entendia o porquê da árdua necessidade que havia naquele ato, que soava como penitência a um passado marcado por culpa e iniqüidade. Então, via-me correndo diante de uma imensidão de sombras que aterrorizavam meus passos e que pareciam degustar o agonizar de meus gritos. Não era fácil. Eu tentava materializar a idéia de que tudo aquilo não passava de um pesadelo, desviando de todas as tentativas de destruição a mim lançadas, mas de nada isso me servia. As dores aumentavam, o medo acirrava-se, o grito ecoava cada vez mais penetrante. Minha pele ardia em chamas e volatilizava-se perante minha fraqueza. Desordenadamente, vozes e inscrições surgiam diante de mim. Era tudo uma ordem, uma prescrição... Algo que me deixava bem claro o perigo daquela circunstância. Experimentei chegar ao íntimo de minha mente, a fim de buscar razões que justificassem o demolir de um simples instante de reflexão. De súbito, comecei a entender o que me passava. Era você quem contundia a minha lembrança... E que pena, uma triste lembrança!"