Critical Watcher

Hoje, mais do que nunca, em um dia em que o medo de perdê-lo se fez tão presente, venho lhes dizer algumas palavras singelas, provindas do ponto mais cândido de meu coração. Sempre me achei uma pessoa muito complicada, de difícil relacionamento; alguém que não conseguia entender o porquê de o “amor” ser assim: tão complicado e infértil... Os dias iam e vinham e, a cada nova experiência, decepções me surgiam.

E eu chorava. Chorava feito criança quando descobre que o papai Noel não existe mais; ou quando acabava o dinheiro para brincar no parque de diversões mais badalado da cidade, não tendo ido em todos os brinquedos. Os brinquedos... Ah, alusão aos relacionamentos que vivi. Eu sempre acreditava que aquele seria meu brinquedo predileto, cujo investimento sempre seria lançado nos risos, na felicidade estampada, no tempo perdido brincando de fazer nada, nos giros e na serenidade dos cavalinhos que pareciam, de fato, cavalgarem.

E o divertimento sempre acabava, cedo ou tarde. Não era o que eu queria para mim. Não era eu quem decidia o fim daquele instante. Eu só pretendia encontrar o meu brinquedo: no sentido mais pueril da palavra. O brinquedo que não fosse apenas um brinquedo. Aquele que me fizesse, por definitivo, esquecer do tempo e deixar que todas as minhas moedas do meu porquinho de gesso valessem a pena. O brinquedo que me completasse em todos os momentos, tristonhos ou felizes.

Certo dia, percebi que os parquinhos de diversões sempre iam embora, após arrecadarem todo o meu tesouro. Deixavam marcas que jamais sairiam de minha vida. Sentimentos que nunca seriam esquecidos: um aprendizado constante. Passava-se o tempo e as festas juninas voltavam a ocorrer. E mais uma vez lá estavam eles: os parques. Sorria com a pretensão mais que nobre de encontrar o que eu procurava, até que novas dores surgissem e novamente aqueles bons tempos fossem embora.

Algumas vezes, eu fazia questão de expulsá-los. Outras, eles se iam sem que eu nem percebesse. O meu medo ia cada vez se tornando mais comum, pois eu estava quase certa de que você não existia. Eu tinha tentando de várias maneiras encontrar você, seja nos fogos de artifício ou no “carrinho de bate-bate”, nas lembranças gostosas da maçã recheada de mel ou nos crepes suíços com chocolate. E de nada me valia. Tempos quase perdidos e que me causavam frustração, medo e aspereza.

*

Mas você surgiu. Surgiu naquele brinquedo de tiro ao alvo, em que as pessoas tentam derrubar os pirulitos, doces, chocolates e afins... Em um tiro certeiro, consegui acertar o seu coração. Um coração espelhado, cuja imagem não passava do reflexo do que eu era. A bala de borracha não quebrou o alvo, e voltou ao meu encontro, acertando-me sem medo.

Havíamos nos encontrado. Senti isso desde o primeiro instante, mesmo com a dor ínfima do início de tudo, com confissões minhas que te deixaram atordoado – o choque inicial da bala em meu peito. Já não vivo sem você. Sinto que é parte de mim e que eu não vou te perder nunca, pois parquinhos de diversões sempre vão e vêm, mas aquela bala que nos acertou em cheio, nunca sairá dos nossos corações.

Depositei, assim, em você, todas as minhas finanças. Cada moedinha de ouro seria a você destinada. Cada medo seria por nós dois enfrentado. Cada dúvida teria fim com o seu simples sorriso de explicação. Foi quando descobri que você não era um brinquedo. Você era o ser mais lindo que já me passara em vista. O alguém por quem esperei noites a fio... E, então, desde esse dia, o meu porquinho de gesso nunca esteve tão feliz e satisfeito, não mais carregando moedas, mas sim uma plenitude de sentimentos que eu não me atreveria a descrever.

A menina do sonho.


9 Responses

  1. Sonhos podem ser concretizados quando a gente persiste. Quando o querer fala mais alto que o poder "físico" ou "econômico".

    A menina era feliz e sabia bem disso. Bastava aventurar-se mais...

    Abraço, Freitas.

    =]


  2. Thiago Says:

    Mais um post embriagador... Não pude ler isso e ficar sem comentar. Vivemos numa esfera lúdica onde depositamos nossos sentimentos no universo do jogo. O brinquedo que "supre" a necessidade do outro na infãncia. O parque onde esgotámos nosso instante para esquecer do real, mergulhando no mar das diversões e afogando-se concomitantemente no oceano do "eu". Os sonhos... ah os sonhos.... uma segunda realidade, na qual todos estamos vinculados e queríamos residir eternamente nela. Jogos, Sonhos, Sentimentos... realidades paralelas, sem as quais não sobrevivémos, depositámos nossa existência nelas. Nutimo-nos disso. Vital.

    Thiago Tavares


  3. Esperamos ansiosamente pelos parques da vida, mas da mesma forma que chegam, uma hora se vão.

    mas sempre existiram outros parques, novos brinquedos que virão a nos satisfazer e depois novamente partir... ou não.

    Beijo
    :*


  4. Texto perfeito, com toda a sua simplicidade. Ele me lembrou alguém neste momento... Então repassei a leitura.


    beijos lindo, você é genial.


  5. Jaya Says:

    O texto, é teu?

    Vim falar de saudades.
    Cadê você, homem de Deus?
    Huahuahuaha.

    Te beijo, daqui.


  6. - anderson Says:

    A menina dos sonhos se deu muito bem, finais felizes sempre nos atingem de algum jeito, pessoas que acreditam neles são felizes em dobro - ou até as pessoas que podem merecer um final feliz -, acho que preciso me encontrar com a menina dos sonhos pra saber onde posso encontrar o parque ou algo que o substitua.

    fica bem.
    abraço :]


  7. Toscano Says:

    Que texto maravilhoso. É uma sintese do que realmente é o amor e suas complicações. Entender esse texto é estar ciente que o amor, não é nunca será uma coisa eterna, assim como as coisas belas e boas da vida. O amor, vem e vai, assim como tudo nessa vida, e cabe a nós aproveitarmos ao máximo todos os momentos que ele nos proporciona.

    Grande Abraço e Parabens pelo Blog.


  8. micael Says:

    Nossa, muito belo.

    Antes de mais nada tive a impressão que esse texto fala de realidade. Atualmente as pessoas têm medo de criar vínculo, tudo é muito efêmero, limitado. Talvez seja um pedido, uma procura. E daí vem a pergunta: "por que tanto medo?".
    Não vou falar mais nada. O texto fala por si só.
    Parabéns.