Critical Watcher
Sento-me naquela poltrona defronte àqueles retratos que tiramos juntos no ano passado. Por um instante impetuoso, sinto cada cena vivida transcorrer perante meus olhos... Sob aquela situação conveniente, é involuntário o sorriso disfarçado que ilumina meu rosto, quando penso em você. Lá fora, a chuva ainda ecoante derrama em abundância a matéria-prima do produto de meu lacrimejar. A água salgada e tranqüila flui de meus olhos, irrigando minha alma e encantando meu coração. A limpeza brota no meu âmago, perpetuando cada paixão e sentido de viver ao seu lado. Na lareira, o fogo manifesta-se com resplendor, divagando cores e sombras que me fazem refletir... Não mais vejo motivos em estar parado. O meu equilíbrio sempre foi motivo de perdas interessantes e, a ausência dele, alguns poucos ganhos. Levanto-me calmamente e deixo que meu corpo dance cada som que germina de toda essa jovialidade incomum. Passos largos e rodopios desconhecidos se confundem com uma espécie de ensaio programado. Sobre o chão gélido, figuras e vestígios opacos são desenhados, transformando todo o ambiente de contemplação num palco de teatro, onde eu e unicamente eu somos o elenco e a platéia... Enfrentando as leis da física e outras mais que devo desconhecer, declaro na mecânica que me é presente a força de minha autonomia. A imunidade se apossa por completo de minha essência que, atrevidamente, me faz temeroso. Dá-me o desejo e desperta minha indiscrição. Cura minha alma e ensina-me o caminho tortuoso. Apaga meus medos e rejuvenesce outros. E é assim que vou me sentindo existente, quando tenho a certeza de que vivo e sinto o viver. É assim que, de uma maneira quase inconsciente, deixo meu espírito falar mais alto e clamar pelo êxtase que cada gota de suor representa. A dança, o som que persevera lá fora, a ablução de minhas falhas, o sublime fato de apenas pensar em você... Sentir sua voz, mesmo quando não existam sons. Acalmar o seu espírito, mesmo que a uma distância imensurável. Tocar o seu corpo, mesmo que a matéria não exista... Fazer-te sempre lembrar que transfiguras a simples imagem daquele porta-retrato tão empoeirado e cansado de minha presença a reverenciá-lo, pois dias e noites se vão e aqui estou eu, mais uma vez, ao seu encontro.
32 Responses
  1. Mr. Ziggy Says:

    Eu diria que o seu texto trata maravilhosamente bem de um re-encontro de infinitos. Você conseguiu sublimar com palavras (ou jóias?) algo que flameja em alguma região recôndita de você. Essa transparência de alma, de olho no olho, trouxe uma poesia linda a essa obra-prima. E se existe algum tipo de água salgada aí, deixo claro que o que vejo não são lágrimas, mas sim a imensidão do mar que reside em você, onde lá nas profundezas toca uma música tão bela quanto essa que você colocou como trilha, que divinamente contribuiu na atmosfera do texto. Mergulhei aqui. E nem precisei voltar à superfície para respirar, pois as palavras supriram qualquer partícula de ar necessária aos meus pulmões. Enfim, você me supreendeu! Lindo, lindo, lindo!
    Ziggy


  2. Mr. Ziggy Says:

    PS: Li duas vezes! Uhuhuhu!


  3. Chell Says:

    Olá, os seus textos são muito bonitos... De uma intensidade sem igual. Não tenho palavras pra descrê-lo. Você escreve muitíssimo bem.


    Rachel Phanuelly
    Mossoró/RN


  4. Oi Vicente,

    Falar da ausência é um assunto que dói muito. A dor traz o desequilíbrio e o desequilíbrio traz a arte. Eu sei que você percebeu isso quando disse que o seu equilíbrio sempre foi motivo de perdas interessantes. Eis a prova: seu texto retrata essa turbulência e essa exasperação diante da falta.

    Posso dizer que me senti comovido e álibi desse seu sentimento. Digo também que suas palavras desenharam um cenário triste no meu espírito, mas nem por isso deixou de ser belo.

    Um abraço.


  5. Luca Says:

    Legal é saber quando aquela pessoa a quem admiramos tb nos admira. Admiro muito a riqueza poética, nos teus textos. Eles são sempre mto expressivos.

    Beijooooooos


  6. Leila Saads Says:

    Texto denso como a saudade. E a cena descrita, ao contrário, leve como um espírito em natural reconstrução.

    Belas palavras.

    :)


  7. Ariana Says:

    A saudade é foda né!

    Belo texto!

    Beijo*


  8. Says:

    Quando coisas acontecidas há um ano se tornam velhas, isso deve querer dizer algo... Que bonito o texto, menino.

    Tbm tenho saudades de ti e teus comentários, sempre tão reflexivos e gentis. Fazes falta por aqui, rapaz. Não que eu ande mto presente por esses lados tbm... Ah, a falta de tempo...

    Bjs saudosos.



  9. Ana Says:

    O encontro com a saudade existirá eternamente, pois ela está dentro. Dentro do porta-retrato e dentro de nós mesmos.
    Sinto tanto o que fala, Vicente, pois não faz nem dois meses que não desgrudo os olhos do porta-retrato de meu pai. Ausência que jamais será preenchida, só quando nossas almas se encontrarem novamente.
    Beijo.


  10. Suas palavras quase ocultas mostram-se mais uma vez como guerreiras! O texto em prosa soa como versos de idílio.

    Continua sendo um ótimo escritor, Critical Watcher!

    Abraço.


  11. Blau Says:

    nossa vc descreve tão bem a cena que me sinto dentro dela.
    sao raras as pessoas que conseguem proporcionar tal sensação.
    e claro que o restante do conto é maravilhoso!


  12. Alice Matos Says:

    Que lindo o teu texto... Entrei sem pedir licença e adorei a tua escrita... Voltarei, se não te importares...

    Bjs...


  13. Texto lindo e música também!
    Beijo


  14. Confesso que nao tenho o hábito de ouvir musica enquanto leio postagens, pq me incomoda, mas nesse caso, a combinação dessa música com essa declaração maravilhosa, cheia de sentimento, saudade e pureza, criaram um belo quadro que foi exposto aqui.

    A dor de uma saudade é dificil de tragar, mas ao mesmo tempo, possui um gosto doce, que aos poucos desce, e cria sensações que vão desde uma pulsação maior do coração, um sorriso, ou até um mar de lagrimas.

    Qto a minha postagem, fiquei surpreso qdo vc falou desse negocio de EVA x AVE, pq nunca tinha pensado nisso. O curioso e q ja comecei o conto com esse nome na cabeça, e mas na hora tinha escrto com outro nome, mas sei lá, fiquei tanto com EVA na cabeça que acabei mudando de volta.

    Abçs!!!

    Tem novidade no Em Linhas... confira!!!!
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    EM LINHAS...
    Quando as palavras se tornam o nosso mais precioso divã.

    Novo texto: O Mal da Gota
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  15. Lúcia Says:

    Procurar ou querer tocar um corpo sem que a matéria esteja ali é tão angustiante... e conheço isso. O pior é quando você sabe da cruel impossibilidade do retorno daquele corpo...

    Bonito texto.

    Beijos


  16. Lyra Says:

    Diante de alguém que escreve tão bem, tem-se a sensação de que as coisas que permaneceram escondidas no caos emergem...

    Beijinhos e até breve.

    ;O)


  17. [P] Says:

    Lindo o tom que você deu às palavras para expressar a saudade. Saudades de ler-te, Vicente sumido...

    Beijo.


  18. nj.marabuto Says:

    li umas três ou mais vezes! a leitura me refez, me senti em vias de me curar de algo... algo de que nem sabia estar padecendo. preciso eu dos meus momentos de reflexão, descobri, recobrar a interiorização e a meditação que sempre me foram caras. fui ao texto anterior e me senti melhor ainda. daí resolvi escrever, me libertar, seguindo teu conselho.

    =) um abraço sr. espelho!
    ________
    ps.: secret garden é muito bom.


  19. M. [doc] B. Says:

    Quanto tempo fazia que não vinha aqui contemplar as maravilhas de suas palavras...
    Confesso, tão boas quanto antes! :)


  20. GMV Says:

    Cheguei aqui por acaso. Adorei a sua escrita.Também gosto de palavras...e vê-las assim é sempre uma satisfação. Sou professora, enfim, neste meu adorado Portugal.


  21. Lúcia Says:

    Ora, precisava de permissão para linkar-me?! =)

    Reforço meu comentário lá em cima!

    Adorei a visita, e linkei você sem sua permissão também...!

    Beijos


  22. Jaya Says:

    Ando precisando encontrar essa plenitude. Mas me falta a noção bonita do meditar. E se houvesse uma possibilidade tão serena e bela quanto a tua, seria mais fácil paz.

    Bonito como sempre.
    Tuas palavras me faziam falta.

    Beijocas.


  23. Blz Vicente???

    Tem Delírio no Em Linhas... confira!!!

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    Quando as palavras se tornam o nosso mais precioso divã.

    Novo texto: Delírio - O Rancor
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    Abçs!!!!
    Tenha uma ótima semana!!


  24. Quando a lágrima é tranqüila assim, é bom chorar, porque lava a alma.

    Beijos.


  25. Camilinha Says:

    olhar o retrato antigo é como olhar-se no espelho - vês marcado na memória além das rugas, inúmeras lembranças...

    este teu post tá fazendo aniversário, hein? agora que eu comentei vc pode mudar...ehehehe

    gostou da música?

    beijos daqui...


  26. Clecia Says:

    Oi!Tudo bem? Encontrei seu blog por acaso. Amei! Muito bom mesmo. O post atual é maravilhoso. :) Vou voltar outras vezes. Um abraço


  27. Nessa plenitude podemos enxergar nossos sentimentos que estavam nublando nossa visão.

    Beijos de Sol e alma.


  28. Clecia Says:

    Que lindo post! Meditar faz bem, não é mesmo? Gosto de ficar em silêncio meditando, embora meus devaneios nem sempre sejam escritos. Penso tanta coisa que acho impossível transcrevê-lo para o papel. :) Às vezes são particulares demais e outras bobagens. :) Um abraço e bom fim de semana!


  29. Divinius Says:

    Do melhor que já vi na blogosfera...
    Sorriso.


  30. Muito bom, moço. A solidão doeu aqui dentro... é que ela já se faz presente. E essa carência, essas lembranças, elas também fazem parte do meu dia-a-dia.

    Beijo meu.


  31. Ariana Says:

    Ai, Adorei aqui!
    Mto bom o seu blog!

    bEIJO*